quarta-feira, outubro 04, 2006

°°°°°°°Solidão°°°°°°°°



A solidão é uma arte. Pintura a óleo que dificilmente desaparece. Paisagem que insiste em perder-se, em ser adulterada pelo toque inconsequente de alguém anónimo. O mundo fica mais pequeno a cada tentativa, condensado sob o desejo do esquecimento. Uma esfera invisível que interponho entre mim e tudo o que me rodeia. Estou ao lado das pessoas, estou no seu meio, na sua frente. Mas simultaneamente distante, separado, afastado. Essa barreira irradia da minha pele, envolvendo-me. Como uma estranha aura que me mantém emocionalmente estanque e preservado. Caminho por entre multidões, por entre amigos, no seio familiar. Caminho como quem paira no céu, no próprio ar, como uma pena. Cada frase, cada palavra, cada expiração sonorizada apenas me faz subir mais alto, voar mais longe, partir para o meu outro mundo. O meu coração é coberto por um céu tépido, nublado, metalizado. É pouca a luz que o alcança, menos ainda a que o atravessa. Barreira impermeável à mais longa das monções, Atlas emocional que sustém um mundo próprio, braços de titânio que sustêm universos pessoais. Defesa subconsciente absoluta, parede de gelo milenar que sustém um id primitivo, lágrima de terra feita jaula de diamante. Mas o absoluto emocional é uma fantasia infantil, uma ilusão desmistificada. Até o mais denso cristal estilhaça quando embalado pela frequência certa. Doce melodia inebriante, que com mãos de veludo e tacto preciso, remove subtilmente selo após selo, barreira após barreira, abençoada com a subtileza de uma brisa marinha. Música inumana, canção divinalmente diabólica vocalizada por seres que já não existem, que já não respiram. A maior catedral colapsa amarguradamente sob a ausência da sua pedra mestra, do seu centro gravítico.

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